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A bordo de um jipe 4x4, quatro pessoas enfrentam o calor, a poeira e uma estrada esburacada na província do Kunene, a quase 1.500 km ao sul da capital Luanda.
O cineasta namibiano Richard Pakleppa, a activista seropositiva Maria Henda, o productor Sérgio Afonso e o engenheiro de som Uliengue Almeida circulam de vila em vila à procura de pessoas vivendo com HIV que queiram contar sua história para uma câmera.
O Kunene tem a seroprevalência mais alta de Angola: 10,4 por cento, segundo dados oficiais.
As consequências estão à vista: a SIDA deixou órfãs muitas crianças nas aldeias, muitas pessoas faleceram e deixaram para trás kimbos (casas tradicionais) abandonados no meio da savana, onde imensos cupinzeiros, conhecidos como morros de salalé, crescem com estranhas formas.
O jipe chega à vila de Ombala-yo-mungo, a cerca de 110 km de Ondjiva, capital do Kunene.
As histórias tristes não demoram a aparecer. Um homem de 40 anos, seropositivo, abandonado pela esposa, que o deixou com três filhos, está doente e a família não tem o que comer. Ao final da entrevista, ele pergunta se alguém não quer adoptar as crianças.
Uma menina de cinco anos, seropositiva, que perdeu os pais para a SIDA, não pode ir à escola porque os colegas não querem chegar perto dela.
Em outra aldeia do Kunene, Maria Henda, que é a entrevistadora no documentário, conversa com uma de quatro irmãs órfãs. Ninguém da família quis assumi-las e elas vivem sem o apoio da comunidade. A moça chora ao dar o depoimento. Maria Henda se lembra da sua própria experiência de rejeição e chora também.
Poeira, fadiga e expectativa
Em dois meses de gravação, Pakleppa e sua equipa rodaram mais de dois mil quilómetros nas províncias de Luanda, Benguela, Huíla e Kunene.
Photo: Sérgio Afonso ![]() |
| Aldeia no Kunene: aumentam os órfãos devido à SIDA |
Pakleppa conta que foi difícil encontrar pessoas que quisessem se expor: “Ninguém quer dar a cara porque as consequências são devastadoras. Pessoas perderam família, casa, amigos, emprego, clientes – tudo por conta da discriminação.”
Outra surpresa de Pakleppa foi ver que, nas cidades, o discurso de muitos jovens reflecte intolerância e preconceito.
“Na teoria, ninguém discrimina, mas quando você vai mais fundo, descobre que não é bem assim. Mesmo pessoas com educação superior, que sabem que o vírus não se transmite pelo toque, admitem que hesitariam em abraçar um seropositivo”, destaca.
Segundo o oficial do Programa de HIV/Sida e Género da Trócaire, Jordão António, o documentário será uma ferramenta de trabalho para activistas e educadores na área de HIV e Sida.
Além das versões em português e inglês, o filme será dublado nas línguas nacionais umbundu, kimbundu, nhaneka-umbi e kwanhama. A trilha sonora será composta pelo famoso músico angolano Paulo Flores.
O custo estimado do documentário é de US$ 225 mil e a primeira versão deve ficar pronta em Março.
Para Maria Henda, as sete semanas de trabalho foram cansativas, mas valeram a pena.
“Fomos a aldeias distantes, vimos muitas situações de abandono, por isso, acho que será um filme de grande impacto”, antecipa.
A expectativa de Pakleppa com o novo filme é grande. “Espero que o filme emocione, incomode, faça as pessoas pensar, mas, acima de tudo, provoque muito debate”, diz.
(ms/ll/rp/ms)
This article was produced by IRIN News while it was part of the United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs. Please send queries on copyright or liability to the UN. For more information: https://shop.un.org/rights-permissions
